A música é necessária,
assim como toda a arte é necessária. […] Ela reflecte o pensamento, o
sentimento, os valores culturais, de grupos sociais específicos e de toda a
humanidade (Cruvinel,
2005, p. 244) .
Esta
dedução directa que Cruvinel faz do valor da música a partir do valor geral da arte parece
evidente, mas de facto não é tão simples de estabelecer. O argumento de que se
é, à partida, consensualmente plausível que as diferentes artes são
necessárias, sendo a música uma arte, então a música seria necessária e a sua
presença da educação geral estaria automaticamente legitimada. Mas este
argumento só funcionará se podermos estabelecer um paralelo relevante entre a
música e as restantes artes no que diz respeito ao que faz com que as restantes
artes tenham direito a constar no ensino geral. De facto, o que se passa é que
este paralelo não é evidenciado pelo modo como a sociedade olha para a música.
Pouca gente duvidará da importância em aprender a interpretar “Os Maias”, mas
muita gente duvidará que existe uma prioridade de ordem equivalente no ensino
de uma sinfonia de Bomtempo. A este respeito, Peter Kivy (1991, p. 80) faz notar que é
necessário perceber porque é socialmente repreensível que se falhe a
identificação de um solilóquio de Hamlet e que não haja sentimento de culpa de
maior se nunca chegamos a ouvir os primeiros compassos da Eroica de Beethoven. Kivy
acredita que, apesar deste desnível no entendimento social geral, qualquer
músico é capaz de reconhecer um lugar de honra e importância para as sinfonias
de Beethoven equivalente ao lugar ocupado pelos dramas de Shakespeare. No entanto, Kivy pondera que a verdadeira
razão para a secundarização curricular da música em relação às outras artes,
como a literatura, não é produto da pura indiferença ou negligência política
mas que surge do lugar especial e problemático que a música ocupa no campo das
artes e humanidades. Isto é, não é possível fazer uma dedução directa do valor
educativo das artes para o caso particular da música. E porquê?
A música,
Kivy afirma inequivocamente, has no
content to reveal, no message to decode (p. 92) .
Mesmo em relação a uma obra da grandeza da Eroica de Beethoven:
For not only is it difficult to see how Beethoven's Third Symphony could
be about anything profound, it is difficult to see how it could be about anything
at all. For it is merely - if "merely" is the appropriate word for
one of the greatest artworks of the West - a magnificent, abstract structure of
sound: one big beautiful noise, signifying nothing (Kivy, 1991, p. 88) .
Como
resultado, Kivy considera que é extremamente difícil colocar a música ao lado
das outras artes – e das restantes disciplinas - que tradicionalmente se
incluem nos curricula. A prova do valor educativo das obras de arte que são
incluídas está no reconhecimento da profundidade
de conteúdos semânticos que veiculam. Isto é, naquilo que têm para ensinar em termos de conhecimento
humanamente relevante. O valor estético – por maior que seja - não parece
condição suficiente: é necessário, para além do valor estético, um conteúdo
relevante, uma problematização pertinente, algum ensinamento de reconhecida
importância. Dado que a música não tem poder representacional, não pode ser um
veículo adequado de conhecimento:
[…] high aesthetic quality is not the only criterion. Confining my
remarks here just to literature, I dare say that on any liberal arts
curriculum, it is the "serious" literary works that will
overwhelmingly predominate. Why is that? Clearly, because it is not just
aesthetic quality that matters in these choices but subject as well. The works
on the "required" list are those the consensus has determined not
only to be literary masterpieces but, in a word, the "profound" ones:
dealing with those questions of deep and abiding concern that have troubled
mankind throughout its history: God, the problem of evil, human freedom,
determinism, law, justice, love, knowledge, good and evil, life and death (Kivy, 1991, p. 84) .
A música não
tem este poder problematizador. Sendo assim, teremos que procurar a
justificação da música noutro lugar, noutro espaço conceptual.
Bibliografia
Cruvinel,
F. M. (2005). Educação Musical e Transformação Social - Um experiência com
ensino coletivo de cordas. Goiânia: Instituto Centro-Brasileiro de
Cultura.
Kivy, P. (Outono
de 1991). Music and the Liberal Education. Journal
of Aesthetic Education, Vol. 25, No 3, pp. 79-93.
Olá Tiago,
ResponderEliminarGostei muito de ler o seu contributo porque me fez pensar em algo que nunca tinha pensado antes. Faz todo o sentido as justificações que aponta para a secundarização da musica no currículo escolar "convencional". Lamento que assim seja, quem sabe se valorizar a musica nao seria uma forma de superar a crise de valores da sociedade em que vivemos e uma forma de a humanizar...