Então o velho ergueu-se
lentamente do banco do piano, olhou para ele com os olhos azuis-claros alegres
e penetrantes e ao mesmo tempo indizivelmente amáveis e disse: - De nenhuma
outra maneira podem duas pessoas tornar-se amigas mais facilmente do que a
fazer música (Hesse, 1989, p. 49).
Fazer música é essencialmente uma
matéria de conhecimento procedimental. Essencialmente porque apesar de ser
razoável pensarmos que existam outros modos de conhecimento musical, todos eles
são subsidiários do procedimental. Elliott (1995, p. 52) assinala que estes
modos subsidiários são quatro, a saber: o conhecimento formal, o conhecimento
informal, o conhecimento impressivo, e o conhecimento supervisor. Estes cinco
modos conjuntamente considerados constituem o que se poderá chamar de musicalidade. A musicalidade é,
portanto, um tipo de conhecimento multidimensional, mas que é demostrado
essencialmente em actos e não em
palavras. É uma forma de conhecimento prático, ou aquilo que se poderá chamar
de pensamento-em-acção, ou
saber-em-acção.
O que significa pensar-em-acto? Segundo uma certa
tradição dualista, as acções seguem-se dos pensamentos verbais numa sequência
linear do tipo pensamento-acção. O
primeiro evento é mental, e o segundo
é físico. O pressuposto dualista
diz-nos que pensar e entender é sempre algo verbal e que agir é sempre algo
corpóreo e não-verbal. Esta visão dualista começa no entanto a ser negada por
muitos filósofos contemporâneos. Segundo esta concepção, as acções não procedem
de um pensamento verbalizado para si mesmo que depois seria seguido de uma
realização efectiva. Se assim fosse, o primeiro evento (o pensamento verbal)
seria uma acção que requereria um pensamento verbal antecedente, levando-nos
para o absurdo de uma regressão infinita de pensamentos verbais – e a acção
nunca poderia ter lugar. Elliott
esclarece que temos que pensar numa síntese para esta aparente dicotomia: In the contemporany view, actions are
nonverbal forms of thinking and knowing in and of themselves (Elliott,
1995, p. 54). A musicalidade é um caso de pensamento não-verbal que se
reflecte e se inscreve na acção musical:
When we know how to do something
competently, proficiently, or expertly, our knowledge is not manifested
verbally but practically. During the continuous actions of singing or playing
instruments our musical knowledge is in our actions; our musical thinking and
knowing are in our musical doing and making. Thus, it is entirely appropriate
to describe competent musical performers as thinking very hard and very deeply
(but tacitly) as they perform (or improvise)—as they construct and chain
musical patterns together; In other words, a performer's musical understanding
is exhibited not in what a performer says about what he or she does (Elliott,
1995, p. 56).
Apesar dos músicos poderem
aplicar outro tipo de pensamento sobre
a acção, a maior parte do seu trabalho consiste em pensar na acção. Elliott considera ainda que a prova da minha musicalidade
joga-se na qualidade da minha execução musical, naquilo que eu faço enquanto
executante (improvisador, compositor, intérprete, maestro). E para entender e
aceder à qualidade da minha musicalidade exibida na minha execução, os meus
avaliadores devem possuir eles próprios um certo grau de competência neste tipo
de pensamento não-verbal, ou pensamento-em-acção.
Mas o que dizer acerca do papel
do conhecimento verbal? De facto, a presença de certos princípios e juízos
relativos ao domínio da música implicam a presença de conceitos verbais. No
entanto, isto é apenas parcialmente correcto. Um conceito não precisa de ser
verbal. Um conceito é um pensamento ou uma ideia com algum grau de concretude
ou abstracção. É algo que permite com que a consciência distinga entre vários
fenómenos – uma unidade cognitiva que se pode manifestar em palavras, imagens
ou acções práticas. Em poucas palavras, o nosso entendimento contemporâneo do
termo conceito está muito para lá da velha noção clássica que o restringe a uma
abstracção verbal. As ciências cognitivas reconhecem hoje conceitos de vários
tipos: verbais, não-verbais, situacionais e sociais. Conceitos práticos e
não-verbais possuem uma riqueza que as palavras nunca poderão captar. Eis um ponto de decisiva importância. Enquanto o desenvolvimento
do pensamento verbal depende fortemente de conceitos verbais, o
pensamento-em-acção (no qual a musicalidade se inclui) depende fortemente dos
conceitos não-verbais. Elliott (1995, p. 58) faz notar que tal
como os conceitos verbais emergem, desenvolvem-se e são utilizados no reino da
linguagem falada, os conceitos práticos emergem, e são utilizados em
comportamentos activos.
Fazendo a ponte para a prática
educativa, isto explica porque modelos de acção são tão eficazes no ensino.
Modelos e demonstrações são conceitos práticos
não-verbais. Estes conceitos não são simplesmente traduzíveis em conceitos
verbais. Por outro lado, usar conceitos verbais no processo de resolução de
problemas musicais requere o recrutamento de vários tipos de linguagem. Por
exemplo, um professor que intente ensinar o melhor modo de executar uma dada
passagem ao estilo barroco, com um tipo de articulação e fraseado, poderá
procurar algumas palavras elucidativas acerca do contexto histórico e cultural
(conceitos verbais) e poderá exemplificar o tipo de articulação no próprio
instrumento (conceito não-verbal). No curso da resolução deste problema
musical, o aluno só poderá alcançar o entendimento dos princípios necessários pela
conversão do conhecimento formal e observacional em conhecimento procedimental -
quando a sua própria execução expressar esse entendimento.
Elliott (1995, p. 75) refere que os
educadores musicais são observadores e monitores do pensamento musical. Na base
dessa análise, o professor deve conduzir a atenção do aluno e guiar o seu pensamento-em-acção usando diferentes
tipos de linguagens de ensino incluindo as não-verbais (a modelagem, a
exemplificação, a demonstração, a gestualidade) e as formais (o discurso, o diagrama,
a metáfora).
Em jeito de conclusão, podemos
dizer que musicalidade e competência pedagógica devem estar unidas. É
necessário termos professores de música musicais,
que sejam exemplos de musicalidade, de pensamento musical activo, que assumam e
incorporem nas suas práticas, no seu comportamento, nas suas interacções – e
não apenas nas suas palavras - a música que esperam ensinar.
Bibliografia
Elliott, D. J. (1995). Music Matters: A New Philosophy of Music Education. New York: Oxford University Press.
Hesse, H. (1989). O Jogo das Contas de Vidro. Lisboa: Publicações Dom Quixote, Lda.