domingo, 17 de março de 2013

O Bardo na Brêtema

Ignorância e estupidez

Por Rudesindo Soutelo(*)


“A gente inteligente que eu conheço só tem um sonho: sê-lo menos”[1] declara o cineasta francês Claude Chabrol numa entrevista publicada nos Cahiers du Cinéma. Há uma crença que identifica a ignorância com a felicidade –o mito do “bom selvagem”, a bondade da pessoa simples, o ideal da intranscendência pós-moderna–  mas que nada tem a ver com o “só sei que nada sei”, frase atribuída a Sócrates e que assume a ignorância como um motor da sabedoria. O filósofo grego era consciente de que o seu saber estava limitado pela sua ignorância e isso impulsionava-o na procura do conhecimento. Aqueles que desconhecem a dimensão da sua ignorância são precisamente os que ousam proclamar-se de sábios.

Platão mostra-nos, no mito de A caverna[2], a perceção do mundo que o ignorante desenvolve quando se apoia unicamente no senso comum. Moradores permanentes no fundo da caverna, a única visão que têm do exterior são as sombras dos transeuntes que se projetam na parede última da gruta, e julgam que essas sombras são a realidade. Um deles consegue fugir dali e descobre que as sombras são produzidas por pessoas, semelhantes a ele, que transitam pelo caminho à frente da entrada da caverna. Esse descobrimento faz-lhe pensar no engano em que vivem os seus companheiros e regressa ao interior para libertá-los daquela ignorância mas eles tomam-no por louco, por inventor de mentiras, e acabam matando-o. Sócrates também foi condenado à morte por mostrar uma realidade diferente da que os atenienses, ilusoriamente, viviam. A realidade virtual, que hoje vivemos, não diverge muito da que se vivia na caverna de Platão.

Na citada entrevista, Claude Chabrol também diz que a “estupidez é infinitamente mais fascinante que a inteligência, infinitamente mais profunda”[3] e argumenta –desde a perspetiva do realizador cinematográfico que vê as pessoas como personagens a serem tratadas num filme– que a estupidez é muito enriquecedora pois, ao contrário da inteligência, não tem limites.

A ignorância ativa, aquela que se ignora a si mesma, não procura a sabedoria e despreza o entendimento ou inteligência. O filósofo alemã Arthur Schopenhauer, na sua obra O mundo como vontade e como representação, diz-nos que “Carência de entendimento se chama estupidez”[4]. Mas não devemos confundir essa carência com o analfabetismo básico pois a iliteracia tem graus académicos, poder, dignidade e dinheiro. Ouçam as musiquetas ordinárias, que se utilizam em tantas celebrações universitárias. A cultura da estupidez é a indústria que nos mantém na caverna.

Carlo Maria Cipolla, historiador e filósofo italiano, num livro com título musical, Allegro ma non tropo, inclui um ensaio onde estabelece as cinco leis fundamentais da estupidez humana. As duas primeiras leis dizem respeito ao número de estúpidos em circulação, sempre superior ao estimado, e à distribuição, como uma constante independente de qualquer outra característica dos indivíduos, confirmando-se a mesma frequência em todos os grupos de amostragem, inclusivamente nos Prémios Nobel.[5]

Partindo das quatro categorias fundamentais em que inclui o ser humano –ingénuos, inteligentes, bandidos e estúpidos– a terceira lei esclarece que: “Uma pessoa estúpida é aquela que causa um dano a outra pessoa ou a um grupo de pessoas, sem retirar qualquer vantagem para si, podendo até sofrer um prejuízo com isso”[6]. É compreensível o bandido que causa um dano para obter um ganho, mas a irracionalidade do estúpido é desconcertante. O estúpido é imprevisível e perseguir-nos-á sem razão nas circunstâncias mais impensáveis porque o estúpido não sabe que é estúpido, não tem malícia nem remorso, e aí reside a sua eficácia devastadora. Mas sempre desvalorizamos o potencial nocivo das pessoas estúpidas, como afirma a quarta lei, e, em vez de os combater, facilitamos o seu acesso às áreas do poder. Quando no governo proliferam os bandidos com uma alta percentagem de estupidez e, simultaneamente, aumenta o número de ingénuos entre os governados, a ruína é segura. “O estúpido é o tipo de pessoa mais perigosa que existe”, conclui a quinta lei.[7]

Theodor Adorno diz-nos que a indústria cultural “domina e controla, de fato e totalmente, a consciência e inconsciência daqueles aos quais se dirige”[8]. A cultura ‘industrial’, feita em série e com padrões de arte menor ou mesmo de lixo, projeta sombras de ignorância no fundo da caverna, onde a estupidez é a felicidade do ignorante.


(*) Compositor e Mestre em Educação Artística.

© 2010 by Rudesindo Soutelo (http://www.soutelo.eu) (Vila Praia de Âncora: 24-VII-2011)

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[1]   Collet, J., Delahaye, M., Fieschi, J.-A., Labarthe, A. S., & Tavernier, B. (2004). Entrevista con Claude Chabrol. In La Nouvelle Vague (M. Rubio, Trad., pp. 23 - 54). Barcelona: Paidós Ibérica, p. 43.

[2]   Platão. (2008). A República (11ª ed.). (M. H. Pereira, Trad.) Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 514ª-518b.

[3]   Collet, J. et al., op. cit., p. 42.

[4]   Schopenhauer, A. (2005). O mundo como vontade e como representação. São Paulo: UNESP, p. 68.

[5]   Cipolla, C. M. (2008). Allegro ma non troppo. Lisboa: Texto & Grafia, pp. 59-63.

[6]   Cipolla, C. M., op. cit., pp. 69-70.

[7]   Cipolla, C. M., op. cit., pp. 84-85.

[8]   Adorno, T. W. (2010). Indústria cultural e sociedade. (J. M. Almeida, Ed.) São Paulo: Paz e Terra, p. 114.

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Publicado em:
As Artes entre as Letras (Porto), nº 57, 31-VIII-2011, p. 18.  http://www.artesentreasletras.com.pt
http://www.soutelo.eu/uploads/Soutelo-06-Ignorancia_e_estupidez-AEL57p18.pdf
 
A Aurora do Lima (Viana do Castelo), Ano 156 nº 63, 16-IX-2011, p. 7
Download in PDF: http://www.soutelo.eu/uploads/Soutelo-06-Ignorancia_e_estupidez.pdf

As tecnologias de informação e as dinâmicas de descentramento

Podemos imaginar a que ponto a ideia bíblica da Criação deixou de condicionar, não apenas no sentido teológico ou metafísico, a visão cosmológica do Ocidente – e a partir dela toda a ordem de conhecimentos e valores – quando assistimos, sem nenhuma espécie de espanto e ainda menos de pânico intelectual, ao sucesso e à glorificação do conceito de caos, não só no plano gnoseológico, como no mais sensível e avassalador do imaginário ocidental (Lourenço, 2007, p. 7) 

Desde o Renascimento que o Ocidente se vê marcado por sucessivas experiências de descentramento em relação às instâncias que buscam uma regulação da sociedade e que tradicionalmente poderiam conferir alguma unidade cultural e social ao mundo Europeu. O declínio do poder da religião, do universo judaico-cristão, e da tradição enquanto fontes de conhecimento normativo conheceu momentos decisivos, tais como: 

1) A descoberta de novos mundos. A cristandade torna-se apenas uma parte do mundo. 
2) A divisão da unidade cristã entre católicos e protestantes. 
3) A descoberta do heliocentrismo. A Terra deixa ser o centro do universo. 
4) A descoberta da imprensa. Expansão progressiva da cultura escrita até às camadas iletradas da sociedade. A cultura escolástica perde exclusividade. 
5) Uma nova ordem económica – o capitalismo. Enfatiza a iniciativa dos indivíduos, em detrimento dos papéis e dos status rígidos próprios às sociedades fechadas. 

Estas mudanças culturais, sociais e económicas resultam numa transformação, acompanhada de acontecimentos decisivos – revoluções francesa e americana. O século das Luzes lança as bases da sociedade moderna, fundada no poder do estado e do mercado. O regime político democrático ressuscita a experiência grega da democracia, morta então há mais de dois mil anos. De facto, os esforços emancipatórios das Luzes foram talvez os mais decisivos na consolidação de uma ordem que tem como forças fundacionais a racionalidade, a ciência e a técnica. Contudo, o que Lipovetsky (2011) nos diz é que esta fase de rutura dolorosa e combativa já não faz parte do momento presente. Os valores democráticos que faziam a bandeira do espírito revolucionário estão de certa forma consolidados e a crise que vivemos é já de outra ordem. 

A sociedade de informação é uma consequência limite dos desenvolvimentos científicos aplicados à vontade de comunicação constitutiva dos seres humanos. Não me parece que se possa reconhecer uma rutura. Há uma linha evolutiva contínua que sofreu um crescimento exponencial nas últimas décadas. De Bell à IBM a diferença, apesar de colossal, é de grau. O acesso à Internet e o aparecimento progressivo das tecnologias de informação vieram introduzir uma outra experiência de descentramento, análoga às que foram indicadas. Contudo, a mais radical de todas elas. A Internet é o espaço da descentralização absoluta, em que não é possível definir nenhum centro dominante, nenhuma referência normativa ou cultural, nenhum núcleo consistente de valores e saberes, nenhuma autoridade, nenhum território privilegiado. Aliás, ela define-se justamente por uma lógica de rede que se pretende a mais universal possível, na qual tudo tem igual direito de presença, igual legitimidade. 

Ora, este descentramento representa em primeiro lugar uma erosão extraordinária dos centros de autoridade cultural, política ou religiosa. Não quer isto dizer que estas instâncias deixaram de existir ou de exercer influência. Significa que as suas dinâmicas de imposição ou de influência tem agora que enfrentar e se integrar neste mundo novo, onde todas as alternativas, todas as variantes discursivas e ideológicas tem lugar.  

Se retomarmos todas as etapas de descentramento vividas pelo Ocidente, nos lembrarmos que este mesmo Ocidente se desenvolveu sob o signo da dúvida e que a atitude filosófica constituiu, desde a sua génese, a atitude privilegiada de relação com a realidade - Sócrates é o símbolo de uma espécie de ignorância operativa ou de uma humildade reflexiva essencial e Nietzsche a voz mais soante do poder erosivo da atitude crítica perante tudo o que se pretenda automaticamente legitimado pelo dogma ou pela tradição – temos que a Internet e todas as outras tecnologias de informação parecem ter vindo ao encontro de uma vontade emancipatória que sempre esteve inscrita na nossa cultura. 

No tempo presente, a vastidão de conteúdos e a rapidez da sua proliferação é tal que muito facilmente a facilidade e a abundância se tornam dilema irresolúvel. O homem ocidental vive um sentimento oceânico de pura liberdade de escolha, mas o paradoxo é que essa escolha, no limite, pela erosão das instâncias legitimadoras, não encontra nenhuma hipótese de orientação edificante. Sem qualquer referência, vivendo do puro imediato e casual, o homem pode ser livre, mas torna-se profundamente só e vazio. 

No entanto, a crise de valores que por vezes se apregoa não é algo que se possa entender facilmente. As transformações associadas apresentam múltiplas faces, cada uma delas potenciadoras das mais variadas consequências sociais. Como exemplo temos o individualismo - que tão bem poderia definir a postura existencial do homem moderno – que implica, para sua própria preservação, uma cultura de tolerância. Daí que a suposta superficialidade dos hábitos também funcione, algo surpreendentemente, como defesa dos valores democráticos. 


 Bibliografia

Lipovetsky, G. (2011). Os Tempos Hipermodernos. Lisboa: Edições 70.
Lourenço, E. (2007). O Esplendor do Caos. Lisboa: Gradiva.