domingo, 17 de março de 2013

As tecnologias de informação e as dinâmicas de descentramento

Podemos imaginar a que ponto a ideia bíblica da Criação deixou de condicionar, não apenas no sentido teológico ou metafísico, a visão cosmológica do Ocidente – e a partir dela toda a ordem de conhecimentos e valores – quando assistimos, sem nenhuma espécie de espanto e ainda menos de pânico intelectual, ao sucesso e à glorificação do conceito de caos, não só no plano gnoseológico, como no mais sensível e avassalador do imaginário ocidental (Lourenço, 2007, p. 7) 

Desde o Renascimento que o Ocidente se vê marcado por sucessivas experiências de descentramento em relação às instâncias que buscam uma regulação da sociedade e que tradicionalmente poderiam conferir alguma unidade cultural e social ao mundo Europeu. O declínio do poder da religião, do universo judaico-cristão, e da tradição enquanto fontes de conhecimento normativo conheceu momentos decisivos, tais como: 

1) A descoberta de novos mundos. A cristandade torna-se apenas uma parte do mundo. 
2) A divisão da unidade cristã entre católicos e protestantes. 
3) A descoberta do heliocentrismo. A Terra deixa ser o centro do universo. 
4) A descoberta da imprensa. Expansão progressiva da cultura escrita até às camadas iletradas da sociedade. A cultura escolástica perde exclusividade. 
5) Uma nova ordem económica – o capitalismo. Enfatiza a iniciativa dos indivíduos, em detrimento dos papéis e dos status rígidos próprios às sociedades fechadas. 

Estas mudanças culturais, sociais e económicas resultam numa transformação, acompanhada de acontecimentos decisivos – revoluções francesa e americana. O século das Luzes lança as bases da sociedade moderna, fundada no poder do estado e do mercado. O regime político democrático ressuscita a experiência grega da democracia, morta então há mais de dois mil anos. De facto, os esforços emancipatórios das Luzes foram talvez os mais decisivos na consolidação de uma ordem que tem como forças fundacionais a racionalidade, a ciência e a técnica. Contudo, o que Lipovetsky (2011) nos diz é que esta fase de rutura dolorosa e combativa já não faz parte do momento presente. Os valores democráticos que faziam a bandeira do espírito revolucionário estão de certa forma consolidados e a crise que vivemos é já de outra ordem. 

A sociedade de informação é uma consequência limite dos desenvolvimentos científicos aplicados à vontade de comunicação constitutiva dos seres humanos. Não me parece que se possa reconhecer uma rutura. Há uma linha evolutiva contínua que sofreu um crescimento exponencial nas últimas décadas. De Bell à IBM a diferença, apesar de colossal, é de grau. O acesso à Internet e o aparecimento progressivo das tecnologias de informação vieram introduzir uma outra experiência de descentramento, análoga às que foram indicadas. Contudo, a mais radical de todas elas. A Internet é o espaço da descentralização absoluta, em que não é possível definir nenhum centro dominante, nenhuma referência normativa ou cultural, nenhum núcleo consistente de valores e saberes, nenhuma autoridade, nenhum território privilegiado. Aliás, ela define-se justamente por uma lógica de rede que se pretende a mais universal possível, na qual tudo tem igual direito de presença, igual legitimidade. 

Ora, este descentramento representa em primeiro lugar uma erosão extraordinária dos centros de autoridade cultural, política ou religiosa. Não quer isto dizer que estas instâncias deixaram de existir ou de exercer influência. Significa que as suas dinâmicas de imposição ou de influência tem agora que enfrentar e se integrar neste mundo novo, onde todas as alternativas, todas as variantes discursivas e ideológicas tem lugar.  

Se retomarmos todas as etapas de descentramento vividas pelo Ocidente, nos lembrarmos que este mesmo Ocidente se desenvolveu sob o signo da dúvida e que a atitude filosófica constituiu, desde a sua génese, a atitude privilegiada de relação com a realidade - Sócrates é o símbolo de uma espécie de ignorância operativa ou de uma humildade reflexiva essencial e Nietzsche a voz mais soante do poder erosivo da atitude crítica perante tudo o que se pretenda automaticamente legitimado pelo dogma ou pela tradição – temos que a Internet e todas as outras tecnologias de informação parecem ter vindo ao encontro de uma vontade emancipatória que sempre esteve inscrita na nossa cultura. 

No tempo presente, a vastidão de conteúdos e a rapidez da sua proliferação é tal que muito facilmente a facilidade e a abundância se tornam dilema irresolúvel. O homem ocidental vive um sentimento oceânico de pura liberdade de escolha, mas o paradoxo é que essa escolha, no limite, pela erosão das instâncias legitimadoras, não encontra nenhuma hipótese de orientação edificante. Sem qualquer referência, vivendo do puro imediato e casual, o homem pode ser livre, mas torna-se profundamente só e vazio. 

No entanto, a crise de valores que por vezes se apregoa não é algo que se possa entender facilmente. As transformações associadas apresentam múltiplas faces, cada uma delas potenciadoras das mais variadas consequências sociais. Como exemplo temos o individualismo - que tão bem poderia definir a postura existencial do homem moderno – que implica, para sua própria preservação, uma cultura de tolerância. Daí que a suposta superficialidade dos hábitos também funcione, algo surpreendentemente, como defesa dos valores democráticos. 


 Bibliografia

Lipovetsky, G. (2011). Os Tempos Hipermodernos. Lisboa: Edições 70.
Lourenço, E. (2007). O Esplendor do Caos. Lisboa: Gradiva.

3 comentários:

  1. “A sociedade de informação é uma consequência limite dos desenvolvimentos científicos aplicados à vontade de comunicação constitutiva dos seres humanos”

    Creio que a nossa forma de comunicação está a tornar-se cada vez mais artificial, faltando aquilo que considero essencial à verdadeira comunicação – a proximidade. Cada vez mais deixamos de comunicar desta forma...
    A comunicação tem de ser mais do que a mera transmissão de informação. Esta necessidade humana básica não pode, simplesmente, ser compensada com os “maquinismos” e sofisticações da era moderna.

    “Ora, este descentramento representa em primeiro lugar uma erosão extraordinária dos centros de autoridade cultural, política ou religiosa.”

    Este descentramento representa (em primeiro lugar) uma profunda crise de identidade – um descentramento do próprio sujeito. Na minha opinião, a questão do abandono das instituições religiosas, culturais e políticas é menos inquietante.
    O que eu assisto é a um abandono das ligações primárias, como a família. A ausência destas ligações é que estão na base deste vazio. E mais uma vez, não poderá ser preenchido pelos “hábitos” e os “palavreados” impingidos por estas instituições.

    Joana Martins

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    1. O desenvolvimento das tecnologias de informação, tal como o desenvolvimento dos meios de transporte e das vias de comunicação (auto-estradas, comboios, o que seja) tem como intenção fundamental a facilitação da comunicação humana. O conjunto de informação enquanto repositório de conteúdos agora abundantemente disponibilizado é apenas um dos elementos da sociedade moldada segundo este novo aparelho social. Tal como para o telefone de Bell, a informação aqui em jogo é apenas o elemento mais fundamental da comunicação – tomemos o sinal eléctrico que representa a expressão “Olá!” que viaja de uma cidade à outra, por exemplo. Não creio que haja à partida um critério de proximidade que possa aferir da qualidade das relações humanas - podemos odiar o nosso companheiro de quarto com a mesma intensidade com que amamos a nossa correspondente na Austrália. O sonho humano de ultrapassar barreiras, de chegar a lugares cada vez mais longínquos de fugir da zona de conforto, de descobrir e conhecer, é-lhe tão essencial como a vontade de cultivar o que lhe é familiar e afim, que lhe traz calor afectivo garantido. Largar lastro é tão urgente quanto cuidar dos que já nos amam e nós amamos. Penso que a crítica às sofisticações da era moderna devem ter em consideração esta dialéctica intrínseca à vontade humana: o dilema ininterrupto e dilacerante entre o ficar e o fugir, o arriscar e o cultivar, o guardar e o largar. No século XVI esperava-se que as caravelas fossem as mais sofisticadas possíveis. Além disso, a procura de sofisticação é em si mesma um dos grandes marcos desta viagem humana.
      O lugar do “primeiro lugar” não é da ordem da importância, mas da ordem lógica da causalidade de acontecimentos. De resto, a crise de identidade não é algo necessariamente negativo. A religião e a ideologia podem ter a força de resguardar o sujeito de sérias inquietações, pelo condão encantatório de lhe oferecer crenças existencialmente confortáveis ou pela garantia de sentido de um projecto de vida. E se nos lembrarmos da influência que os princípios judaico-cristãos e os ideais da revolução francesa tiveram no desenvolvimento da sociedade ocidental vemos que estamos perante algo de importância fundamental. Uma das consequências que me parecem mais evidentes da explosão das tecnologias é a relativização destes discursos instituidores de sentido. A crise de identidade do homem moderno é uma consequência (daí que suponho que o teu “primeiro lugar” será da ordem da importância e não da ordem lógica da causalidade dos acontecimentos) de uma série de fatores, entre os quais se faz notar uma dispersão ideológica na qual todos os valores são postos em causa. Inclusive porventura, o “valor da família”, que, supostamente, seria um “valor” que os nossos antepassados preservariam e que nós estamos a perder. Lembro, a propósito, que a igreja católica ainda preserva a sua exortação acerca do papel nuclear da família – é a primeira a lançar o alarme da crise de valores, mas que, claro está, lança o anátema a modelos de relação que não se enquadram no cânone prescrito.
      O eventual hábito de cultivar, digamos, a proximidade à distância não é, de facto, uma boa promessa para quem espera uma sociedade potenciadora de relações ricas e humanamente preenchedoras. No entanto, a sociedade de informação é plena de contradições (e isso daria outra reflexão....). As ligações que se estabelecem estão muito longe de se reduzirem a esse modo puramente distanciado. A tautologia de que novas oportunidades de relação podem surgir parece-me ter uma força socialmente germinadora de intensidade pelo menos igual ao perigo de distanciamento.
      Se hoje procuramos reabilitar certos valores, como o papel da família e do contacto vivo entre as pessoas, fazemo-lo de um modo radicalmente diferente.

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  2. Caros alunos, em especial Tiago e Joana,
    Gostei muito da vossa discussao e felicito o Tiago pela qualidade do post que deu origem ao comentario da Joana e à resposta do Tiago.
    Fez-me muito bem a mim também pensar no paradoxo da "oceânica" liberdade de escolha que a Internet e as TIC nos dão que o Tiago refere baseado em Lipovetsky e Lourenço e que, trazem, na perspectiva dos autores e que o Tiago partilha, um sentimento de solidão e vazio. É verdade. Mas também é verdade que nos trazem também muita coisa positiva e sabemos que é para nesta sociedade que vivemos e para a qual temos de formar/preparar os jovens que ns chegam às mâos. Com professores que devemos fazer para minimizar os efeitos devastadores da sociedade tecnologica em que vivemos? Pensem nisso...
    Até amanhã!
    Abc
    CC

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